Janilton Gabriel de Souza (*)
Aproveito o fim de ano para trazer uma provocação: “Você quer o que deseja?” A resposta mais apressada, pode ser uma afirmativa, que não leva em conta a dimensão da pergunta. Talvez porque respondê-la nos convoque a trabalhar. Então, deitemos no divã, a sessão começa com uma negação: NÃO quero o que desejo. Clique no título para ler o artigo completo.
Há pessoas que são extremamente queridas em seu meio, são prestativas até “demais” com os outros. Entretanto, quando se trata de suas coisas deixam muito a desejar. Alguns tipos possuem uma iniciativa impressionante: parecem que vão a uma revolução. São as primeiras a gritar para os seus amigos e a estimulá-los a fazer, mas as primeiras a descerem do seu próprio barco, quando percebem que estão próximas de realizarem o que querem. Outro grupo, vive em um processo interminável de “deixar para depois”. Para esses últimos cantemos com Mariza Monte: “ei de ser feliz também, depois”.
Você leitor me questiona: mas, e quando conseguem realizar o que desejaram tanto? O primeiro grupo, os iniciadores, normalmente, arrumam qualquer problema, para dizer que não é bem aquilo o querem. O segundo, aqueles que postergam, não dão o valor ao que conquistaram e passam a ter uma atitude aquém do esperado. Ambos burlam o seu próprio desejo. Nesses momentos os “esquecimentos” também podem dar notícia desse ato de se boicotar. Esquece a passagem do avião, os documentos para fazer um concurso que tanto sonhou ou a matéria que estudou exaustivamente. Ou ainda, adia o sonho de conhecer Nova York, ou se for, passa mal na viagem. Ou também, a mulher que sonha com o príncipe, que claro, nunca chegará e, se chegar, logo virará sapo. Tudo isso pode acarretar muito sofrimento, um gasto energético grande para “NADA FAZER”.
Há quem sonha com o dia em que tudo será lindo e maravilhoso e, se sonha com isso, lamenta os infortúnios de sua vida. Invariavelmente, suas frases são um misto de lamentos com um corte certo de conjugações, como: “mas, porque”… Minha querida professora de português, Magda, contou-me como percebe a pouca responsabilidade de suas alunas diante daquilo que dizem querer: “professora, ‘queria’ tanto um namorado”. Ela como uma excelente professora e observadora me diz: “como pode? ‘Queria’ é um verbo conjugado no pretérito, que significa: não quer mais”. É mais “fácil” conjugar o verbo no passado, para não correr o risco de se dar com o que deseja, no presente.
O desejo, tal como Lacan descreveu, é sempre desejo de outra coisa, ele se movimenta. Como quem se lança para dançar, deve se entregar ao movimento, nos mais variados ritmos. Não só o psicanalista indaga o nosso desejo, mas também poetas, como Fernando Pessoa: “se queres passar além do bojador / tens que passar além da dor”. Essa é uma dimensão desejante, que comporta e assume uma perda, entretanto, que apesar dela, e poderia dizer, por causa dela, se lança em uma busca. Entretanto, quando essa busca é acompanhada por uma entrega do sujeito podemos trazer a estrofe anterior do poeta, que se traduz assim: “valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Muitos querem apenas, o ganho e, tentam fazer o “impossível” para não se darem com a perda, logo não podem também desejar. O desejo nos explica, o psicanalista, Patrick Valas: “é muito difícil de se obter, pois é preciso sustentá-lo no ato, que nunca deve cessar de renovar-se”. O cantor Raul Seixas diz isso com um ritmo musical: “gente é tão louca e, no entanto / tem sempre razão / quando consegue um dedo / já não serve mais / quer a mão / E o problema é tão fácil de perceber / é que gente nasce para querer”. Querer não basta, é preciso também se comprometer com “o que causa” o seu desejo. Até a nossa próxima sessão!
(*) Psicólogo clínico atuante a partir da psicanálise, educador e pesquisador da UFSJ. Colaborador do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Publica suas reflexões diariamente no seu site: www.janiltonpsicologo.com.br.
