No cotidiano e no atendimento clínico, nos deparamos com pessoas quem vivem uma “aparente” face de racionalidade e, de repente, passam a experimentar uma paixão arrebatadora. Movidas por um encantamento e uma promessa de felicidade essas pessoas são capazes de abrir mão de tudo para viver, um “amor verdadeiro”. Será que a paixão nos leva aos atos de loucura? Clique no título para ler o artigo completo.
Na etimologia da palavra “paixão” (pathos) encontramos o sofrimento, essa definição se afasta da ideia romanceada dos enamorados. A explicação para esse sofrimento pode ser desenvolvida a partir da concepção do aparelho psíquico de Freud. Não suportamos durante muito tempo uma excitação constante, que a partir de certo limiar tem-se a sensação de desprazer, o sofrimento. Entristece-se pela incerteza do amor de quem se ama. E, também, por consequência, por investir toda sua energia e atenção nessa pessoa.
Freud dizia, que aquele que se encontra enamorado pelo outro, a fronteira entre o “eu” e “tu” aparentemente se dissolve. Isso leva os “pombinhos” a, fantasiosamente, acreditarem ser apenas UM. Essa ideia nos remete ao mito dos inteiros de Platão. Segundo a história, no princípio, éramos apenas UM, mas depois fomos divididos e desde então buscaríamos nossa metade. Romances a parte, o mito platônico revela uma verdade humana: acreditamos que um dia fomos completos, mas a verdade é que sempre fomos faltosos.
Os neuróticos vivem a busca do “elo perdido”, como se fosse possível encontrá-lo. Mas, ao mesmo tempo, que essa é a nossa sina é, também, nossa libertação. Afinal, é porque nos falta algo, que desejamos. Depois que apreciamos o caminho e a conquista, desejamos algo mais. A paixão é a “sensação” de termos encontrado isso que faltava. Entretanto, o tempo nos mostra, que ela é apenas uma miragem.
Claro, há aqueles que anseiam por um relacionamento, na qual a falta seja tamponada e que o outro seja impedido de desejar. Em nome da paixão, muitos abrem mão de suas convicções, alguns de seus amigos, das atividades de que gosta e tudo mais para agradar ao outro. Normalmente, esse é um projeto ambicioso de tentar matar o desejo do parceiro ou parceira, para que não possa mais desejar. Um exemplo disso: Quando o homem exige que a sua amada abandone seus prazeres e se dedique ao universo dele. Se nada faltar, tudo pode estar perfeito… para ele. Invariavelmente, esse tipo de relação é: “ou” o que quero “ou” seus amigos, “ou” isso “ou” aquilo. São relacionamentos de duas metades, acreditando serem carne e osso e formando um mundo, onde só o casal existe.
Em terra de sujeitos, para dois tornarem-se um, alguém cede sua própria vida ou os dois, dependendo da montagem estabelecida. O amor é possível, com um toque de invenção, mas como inventar se ao outro dou preenchimento ao invés de falta? Sábio mesmo é o poeta Osvaldo Montenegro, que nunca se prende a uma metade e desliza seus versos nas várias de sua vida: “Porque metade de mim é o que eu grito / A outra metade é silêncio / (…) Pois metade de mim é partida / A outra metade é saudade.”
(*) Psicólogo e Psicanalista. Mestre em Psicologia (Psicanálise) pela Universidade Federal de São João Del-Rei, onde também contribuí como pesquisador. Especialista em Teoria Psicanalítica. Colaborador do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Editor do site Janilton Psicólogo (www.janiltonpsicologo.com.br). Contato para atendimentos clínicos (35) 3212 6663 / 9993 6663.
