Por Janilton Gabriel de Souza (*)
Dando sequência às reflexões sobre o “próximo”, nesta segunda parte da série “meu no outro”, falaremos da dificuldade de “amar ao próximo como a ti mesmo”. Embora tenha sido apropriada pelo cristianismo, essa máxima é anterior a Cristo.
Sigmund Freud, criador da Psicanálise, em seu texto “O Mal-estar na Civilização” apresenta as razões que nos impedem de cumprir esse imperativo. Algumas residem no fato de o outro ter um lado obscuro e maldoso, existente em mim, também.(clique no título para ler o artigo completo)
Entretanto, esse lado é ignorado, pois é mais fácil acreditar na bondade humana do que aceitar suas atrocidades. Quando o sujeito age ignorando elementos que por diversas razões podem causar-lhe desprazer, compreendemos isso como algo problemático, em outras palavras, sintomático. O sintoma é um “nada quer saber”; porém, para ele se sustentar, é criado um universo para si a partir da fantasia. Será através dessa fantasia que o sintoma irá se sustentar, como dizia o psicanalista francês Jacques Lacan.
É comum haver sentimentos de amor e ódio despertados na relação com o outro. O amor-ódio nem sempre refere-se a quem é seu alvo. Um leitor encaminhou-me um escrito que falava sobre a relação de espelho. Segundo essa relação, aquilo que projetamos no outro diz respeito a nós mesmos: se admiro ou odeio algo na forma do outro agir, de se portar comigo, se ele faz coisas que me incomodam é porque tais coisas estão em mim e não nele. É como se olhasse no espelho de fato, porém ao invés do espelho utilizo uma pessoa.
Outro dia visitei uma exposição que utilizava diversos tipos de espelhos. Em um deles, meu rosto ficou grande e no outro fiquei como quem come demais uma semana inteira, gordinho. Com o último, brinquei que era culpa do espelho. Fazemos isso não só com os espelhos, mas com os nossos próximos. A diferença é que aquilo que julgamos ser responsabilidade da pessoa é mais nossa do que imaginamos.
Em um tratamento psicanalítico, quando a dúvida surge: “isso é do outro ou é meu?” é sinal de que estamos avançando. Perceber-se no seu “pior” é poder se libertar com a certeza de que o “purgatório” vive em nós (o bem e o mal). Para chegar a isso, o psicanalista é fundamental no processo, como ilustra o filósofo Livinas:
Rav Hiya bar Abba adoece e Rav Yohanan lhe faz uma visita. Pergunta-lhe:
– Concorda com os seus sofrimentos?
– Nem com eles, nem com as recompensas que me prometem.
– Me dá a sua mão – diz então o visitante ao enfermo, fazendo-o levantar do seu leito.
Mas acontece que o próprio Rav Yohanan adoece e recebe a visita de Rav Hanina. A mesma pergunta lhe é então formulada:
– Concorda com os seus sofrimentos?
E a mesma resposta aparece:
– Nem com eles, nem com as recompensas que me prometem.
– Me dá a sua mão – diz Rav Hanina, e levanta Rav Yohanan de seu leito. Pergunta:
– Rav Yohanan não podia se levantar sozinho?
Resposta:
– O prisioneiro não pode se livrar sozinho de seu encarceramento.
(*) Psicólogo e Psicanalista. Mestre em Psicologia (Psicanálise) pela Universidade Federal de São João Del-Rei, onde também contribuí como pesquisador. Especialista em Teoria Psicanalítica. Colaborador do Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Editor do site Janilton Psicólogo (www.janiltonpsicologo.com.br). Contato para atendimentos psicológicos (35) 3212 6663 / 99993 6663.