A Folha de Varginha publicou texto sobre o Almanak Sul-Mineiro, edição de 1874, recém-digitalizada pela Fundação Cultural do Município de Varginha. Redigido por Bernardo Saturnino da Veiga, traz informações corretas sobre os primórdios da cidade.
Nesta edição, publicamos texto sobre a segunda edição do Almanak, de 1883, um ano depois da “freguesia” ser elevada a cidade. A publicação informa que, segundo o recenseamento feito em 1º de agosto de 1873, Varginha tinha população de 7.195 “almas”. A cidade integrava a comarca de Três Pontas, tendo dois distritos: Espírito Santo da Varginha e Carmo da Cachoeira.
O “fôro civil foi creado” em 17 de dezembro de 1882. “No acto da instalação houve enthusiastico festejo, reinando geral alegria, e no dia seguinte, 18, reunio-se pela primeira vez a camara municipal, sendo eleito presidente dela o cidadão Matheus tavares da Silva e vice-presidente o tenente José Maximiano Baptista”. Foram os primeiros prefeito e vice-prefeito de Varginha.
A cidade possuía 5 igrejas, mais de 300 casas (“das quaes 8 ou 9 são de sobrado”), espalhadas por muitas ruas e 6 praças.
A cadeia era construída de pedra com duas enxovias (cela no térreo) e salas no pavimento superior para as sessões do júri, audiências etc.
Bernardino cita alguns homens que conduziram o desenvolvimento da recém-criada cidade. João Gonzaga Branquinho liderou a construção da cadeia. O fazendeiro Domingos Teixeira de Carvalho doou recursos para a construção de uma casa para “instrucção publica”, onde também eram feitas “representações teatraes”. O jornalista não cita a localização da casa de instrução, mas dá a entender ser ao lado da Igreja do Mártir São Sebastião.
Havia uma escola pública para o sexo masculino, com 50 alunos matriculados e “frequencia superior a 30”. A escola para alunas tinha 40 estudantes matriculadas e 30 frequentando as aulas.
A população bebia água de cisternas, presentes em praticamente todas as casas.
Em 1873 uma epidemia de varíola matou mais de 30 pessoas. Foi a única participação financeira dos cofres públicos na última década, a soma de 300$. “Entretanto não são em pequeno numero as obras necessárias reclamadas pelo publico, e que bem merecião aquelles auxílios :- entre ellas lembramos a construção de duas pontes, ambas sobre o rio Verde, sendo uma na estrada da Campanha, a 1/2 legua da povoação, onde os passageiros são forçados a recorrer a uma barca, e outra, a 2 leguas, na estrada para a Mutuca”.
Bernardino descreve o Rio Verde: “tem, termo médio, 30 a 40 metros de largura e mais de 2 de profundidade no tempo secco, pois nunca dá váo, tendo muito peixe, desde os pequenos lambarys, mandys, papa-terras, surubys, etc., até o grande e apreciado dourado, que se vende por 2$ a 5$”.
Sobre a agricultura e escravagismo: “Cultiva-se os gêneros alimentícios mais comuns: café, fumo e algodão para consumo, sendo, porém, a canna a cultura mais usada. Poucos são os fazendeiros na freguesia que possuem mais de 40 escravos”.
O desenvolvimento da cidade: “E´ notável o aumento que tem tido a cidade da Varginha nestes 10 annos últimos, em que têm sido construidas mais de 50 casas. Encontra-se com difficuldade casas para alugar, cobrando-se por algumas 200$ por anno :- ainda ha, porém, grandes espaços desoccupados nas terras que constituem o patrimonio”.
Matavam-se uma ou duas cabeças de gado por semana, “por ser abundante a carne de porco, geralmente usada. Um carneiro custa 3$, os frangos 240 e 280 rs., ovos 160 a 240 a duzia, a sacca de sal 4$.
Remuneração: “Eé de 3$ a 4$ diarios o salario dos pedreiros e carpinteiros bons, ganhando os ordinarios 2$. Os trabalhadores de roça ganhão 640 rs. Por dia e em tempo de capinas, como o trabalho aumenta, elevão sua diaria a 1$”.
“São tambem em quantidade consideravel as frutas, taes como jaboticabas ‘Sabards’, laranjas, mangas, pecegos, marmellos, nozes, etc.,-mas nenhuma delas é exportada”.
Festas: “Muitas são as festividades realizadas todos os anos na Varginha. Durante a Semana Santa solemnisa-se ali, desde muitos anos, diversos mysterios da Paixão, com muita decencia e grande concurrencia de fieis. Além dessas, as festividades do Espirito Santo, S. Sebastião, Santo Antonio e Corpo de Deus não são ali esquecidas”.
Os correios passavam de 4 em 4 dias. Era a linha de Campanha para Três Pontas, “trazendo toda a correspondência da corte, Ouro Preto, etc.”.
