
Por Alexandre Braga *
Provavelmente todos vocês conhecem a música My Way imortalizada principalmente nas versões de Frank Sinatra e Elvis Presley. Pois imaginem comigo quantas versões diferentes dessa música já possamos ter escutado: em um barzinho com voz e violão; em um show interpretado por uma banda formada por vocalista, guitarra, baixo e bateria; em uma apresentação de uma orquestra sinfônica; em um coreto de praça através de uma banda típica de cidades do interior ou até mesmo uma versão em português de Chitãozinho e Xororó.
O que faz com que essa mesma música seja apresentada com várias “roupagens” diferentes?
Clique em Leia Mais.
Veja também:
No vídeo acima, Alexandre Braga e Elvira Gomes interpretam um arranjo para flautim e piano do tango El choclo.

De uma maneira geral, na música popular o compositor escreve a partitura da linha melódica (a voz principal, o canto) e os acordes que compõem a harmonia dessa música (aquelas letras que encontramos em revistinhas de violão como C, Am, D7, chamadas de cifra ).
No caso das diversas roupagens que citei sobre a música My Way, em cada uma delas houve um ARRANJO diferente. A partir da escrita do compositor (linha melódica e acordes) é possível que cada intérprete ou arranjador faça a sua própria versão, desde uma leitura a voz e violão até um complexo arranjo a várias vozes para uma orquestra sinfônica!
E como é isso na música clássica? É possível uma variedade de arranjos sobre o que um compositor escreve?
Na música clássica essa variedade de possibilidades não é tão frequente. As perspectivas mudam.
Geralmente os compositores escrevem a linha melódica de cada instrumento, ou a voz que cada um irá tocar.
Se por exemplo, ouvimos um trio de violino, violoncelo e piano de Brahms, significa que estaremos ouvindo exatamente o que Brahms escreveu na partitura, pensando nesses determinados instrumentos para tocar essa música. Isso permite que o Trio possa ser executado ao mesmo tempo em diferentes lugares do mundo, sem que haja alteração no resultado sonoro (obviamente se não considerarmos a personalidade interpretativa e a qualidade técnica dos executantes).
Nesse caso, Brahms pensou na sonoridade desses instrumentos específicos e compôs segundo os recursos técnicos que eles dispõem. A isso chamamos de linguagem idiomática (o idioma, a língua de cada instrumento).
Diferentemente da música popular, essa composição não permite um “arranjo”, deverá ser apresentada como o compositor originalmente a concebeu.
Se você for a um concerto em Amsterdã ou em São Paulo e for apresentado o Trio em dó, op.87 de Brahms, você ouvirá exatamente a mesma música nos dois lugares.
Para não deixar de mencionar, em alguns casos existem arranjos ou adaptações de obras da música clássica, embora raramente sejam realizadas pelo compositor.
Pode, por exemplo, um movimento de sonata escrita para piano solo de Mozart ser orquestrada.
Como se faz isso? Algum compositor ou arranjador estuda essa sonata, analisa as vozes e as distribui entre os instrumentos da orquestra.
O contrário também acontece: Liszt transcreveu para o piano sinfonias de Beethoven, originalmente escritas para orquestra.
Outro tipo muito comum de transcrição é sobre árias de óperas. Originalmente a ária faz parte do contexto de uma ópera, ou seja, é apresentada pelo cantor com acompanhamento orquestral. Mas existem árias tão bonitas, que recebem transcrições para algum instrumento solista e acompanhamento de piano. Nesse caso, o instrumento melódico executa a música do cantor, enquanto o piano executa o acompanhamento orquestral.
- Músico varginhense, flautista da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais


Eu adorei este artigo, porque está colocando nossos pés no campo da música clássica.
Muito clara a forma como descreveu que a música clássica não muda, independente da interpretação, eu sabia disso mas não sabia o motivo! Muito bom! É como a dança indiana clássica, que estou fazendo: vamos dançar por milênios as mesmas músicas com os mesmos passos!
Novamente o músico e escritor Alexandre Braga, com a simplicidade que lhe é peculiar, como pessoa, transfere esta de maneira perfeita para sua escrita, fazendo um ” arranjo ” irretocável para explicar para qualquer um o tema abordado na crônica da coluna ” Opinião “. Mais uma vez o parabenizo, com satisfação, por ver esclarecido um ponto aparentemente pequeno na imensidão que existe na música, mas que sem dúvida é algo que acrescenta muito ao ouvinte, ao músico iniciante, e aos professores desta arte. Eu mesmo, por muitos anos fiquei sem saber o que era ” arranjo ” e, por sempre ter transitado na experiência muito maior de ouvinte de música clássica, relegava, equivocadamente, o termo, a uma categoria de linguagem menor de conhecimento musical. Meus cumprimentos também ao jornalista Marcus Madeira por ter tido a sensibilidade de apostar nesta feliz parceria.