
Alexandre Braga (*)
Convido todos vocês a perceberem os sons musicais presentes no nosso cotidiano: em um barzinho, onde os músicos estão tocando; ouvindo música em casa, pelo rádio ou aparelhos de sons; em concertos, shows, ou mesmo nos cultos religiosos, em momentos de contemplação e meditação.
Em todos os ambientes descritos acima, há música. Porém, a roupagem dela é diferente.
Vou explicar aqui a textura escolhida pelo compositor ao compor uma música.
Acredito que todos já tenham ouvido um canto gregoriano. É aquela música entoada em algumas igrejas católicas, conduzida por um movimento de caminhar e repousar, induzindo à meditação. As palavras são entoadas lentamente, uma vez que o objetivo é a reflexão do texto.

Ao ouvir o canto gregoriano, podemos perceber que, independentemente do número de pessoas que estejam cantando, só existe UMA linha melódica.
Quando isso acontece, temos uma textura MONOFÔNICA.
Quando vamos a um barzinho e há um cantor com violão, ali se faz presente a linha melódica do cantor e o acompanhamento por acordes, a harmonia, desempenhada pelo violão. Nessa situação, observa-se a LINHA MELÓDICA ACOMPANHADA.
O início da ópera, no período Barroco, se deu dessa forma. Na tentativa de acompanhar o “cantar falado”, inspirado nas tragédias gregas, os compositores escreveram uma linha de acompanhamento contínuo. Esta, era desempenhada por um instrumento grave, daí o nome “Baixo Contínuo”. O surgimento dessa prática foi fundamental para o desenvolvimento das formas de composições instrumentais.
Quando vamos a um culto religioso e escutamos um coral, percebemos que as vozes caminham como blocos sonoros. São linhas melódicas caminhando ritmicamente ao mesmo tempo, quase não há um entrelaçamento das vozes. Essa é a escrita CORAL. Ouçam, por exemplo, o coral “Num danket alle Gott”, BWV 252 de J. S. Bach.
Outro tipo de textura é a polifonia. Ela pode ser representada desde um cânone – que é a sua forma mais simples – até uma complexa música renascentista chamada “Spem in Alium”, composta por Thomas Tallis: essa música possui 40 linhas melódicas, ou seja, 40 vozes diferentes.
Certa vez, tive uma experiência fascinante com essa música: ao visitar um museu, entrei em um amplo salão (foto abaixo). Ali havia 40 caixas de som, uma ao lado da outra, formando um círculo.

Nessas caixas se executava “Spem In Alium”. Cada caixa reproduzia uma voz da música, de modo que pude ouvir cada voz separadamente e juntas ao mesmo tempo!
Um cânone é quando uma mesma música é interpretada com uma defasagem de tempo.
Vou explicar: imaginem a música “Parabéns a você“. Pois bem, pense que você começa a cantá-la: “Parabéns a você, nessa data”…. aqui, no momento em que você canta a palavra “data”, uma outra pessoa começa a cantá-la do início, enquanto que você a continua cantando. Isso é uma forma bem simples de cânone. A mesma música, porém, cantada com uma defasagem do tempo. Sugiro ouvirem as sonatas canônicas de G. F. Telemann.
Contraponto
A técnica usada para escrever a polifonia é chamada de contraponto (punctus cuntra punctus, ou, nota contra nota).
Gosto muito de explicar a polifonia fazendo uma analogia desta com um tapete formado por diversos fios coloridos. Cada fio tem sua própria vida, sua identidade, sua beleza, seu curso próprio. Ele por si só já é interessante.
Às vezes, esses fios caminham sozinhos, às vezes, se entrelaçam, além de outras possibilidades.
O todo do tapete é exatamente a união, a coexistência de vários fios.
Assim é a polifonia. A música é o tapete, e as vozes são os fios.
Sugiro a audição da Missa “Papae Marcelli” do compositor Giovanni Palestrina.
(*) Músico varginhense, flautista da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (OFMG), colaborador do BlogdoMadeira e Jornal Folha de Varginha


Claro, anônimo. A obra Sempre in algum é uma composição do inglês Thomas Tallis, que nasceu em 1505 e faleceu em 1585, exatamente o auge da polifonia. Presenciei a montagem com 40 caixas de som no Museu Inhotim, em Brumadinho-MG. Infelizmente não me recordo do artista responsável pela montagem. Agradeço o toque e fico feliz que tenha gostado!
Muito interessante o seu texto, Alexandre! Parabéns pelo trabalho. Apenas um toque: seria válido apontar o criador da obra apontada (a das 40 caixas) e o local de exposição, é uma forma de respeitar o trabalho do artista. Forte abraço!
Nossa, eu amo aprender sobre música com um conjunto de percepções possíveis como esse! Adorei a forma como colocou, pois todos já tivemos essas experiências e perceber assim, de forma holística, digamos, é muito interessante e extremamente eficiente! Ansiosa pelas suas próximas publicações! Ameiiii!
Que Maravilha! Que riqueza !Alexandre. Opinião /Texturas. O mundo esta tão necessitado de bons textos e de muita musica boa. Obrigada por compartilhar conosco, tudo isto . E, dedicando a uma leitura como esta que as pessoas tornarão sensíveis e entusiasmadas, na construção de um mundo melhor