“Na Rússia, os meninos vão para o balé ao invés do futebol”, conta

O BlogdoMadeira recebeu o produtor cultural, professor de dança e ex-bailarino Douglas Ravadielli. Ele veio ao Blog com sua estudante de Varginha Maitê de Paula e a avó de sua aluna Lidia Mara Martins de Paula. Douglas se dispôs a dar aulas na escola de balé Francine Alegro em Varginha.
Natural de Santo Ângelo (RS), Douglas estudou na Escola de Balé e teatro Bolshoi, em Santa Catarina, de 2007 para 2008.
Ele conversou com Eduardo Bregalda Jr. sobre as dificuldades da profissão, preconceito e as diferenças culturais no Brasil e outros países.
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Como você se “descobriu” bailarino?
“Na verdade eu sempre fui apaixonado por dança. Aos meus 19 anos, eu participei do Festival de Dança de Joinville. Dentro do festival, acontece também uma audição do Bolshoi, que reúne bailarinos do Brasil inteiro e fazem uma seleção. Para aprovar bailarinos para ingressar na escola. Foi em uma dessas que eu fiz a prova e entrei.”
Posso perguntar o que você veio fazer em Varginha? O que te trouxe aqui?
“Eu também sou produtor cultural, eu tenho eventos já há 16 anos, e desse tempo que começou a pandemia, a forma que eu vi de movimentar, fazer esse ‘mundo da dança’ crescer foi criar um evento on-line, um evento virtual. Aí eu recebi inscrições de participantes do Brasil inteiro. Foi aí onde eu conheci a dona Lídia, que tem uma neta que quer ser bailarina. Nós nos tornamos amigos e ele me fez o convite para vir até Varginha e eu acabei aceitando. Aí eu tô dando aula na verdade. Vou dar aula daqui a pouco inclusive.”
É difícil chegar e permanecer no mercado de trabalho?
“Muito difícil. Da minha turma que se formou no Bolshoi, de 14 só 2 estão trabalhando, eu e mais um.”

Você sofre algum preconceito pela profissão?
“Desde sempre. Preconceito de vários aspectos. Preconceito de orientação, cultural. A gente não tem essa cultura no balé. Na Rússia, os meninos vão pro balé ao invés do futebol. Aqui os meninos vão pro futebol ao invés do balé. Então a gente não tem essa cultura. O preconceito é bem grande.”
Como é o tempo de ensaio de um bailarino?
“Olha, o balé clássico ele é alto rendimento. A gente considera ele como se fosse um esporte. Todo mundo pode praticar dança, todo mundo pode praticar balé clássico, mas pra você realmente seguir carreira, você precisa fazer aula todo dia. Principalmente a menina. É uma carga horária de 4 a 6 horas. A menina tem aula de meia ponta, uma aula de uma hora e meia, tem aula de ponta, tem que colocar as pontas, tem a aula de Pas de Deux, que é aula de dueto, e depois disso tudo tem os ensaios. Aí entra a carga horária de ensaios que tem aquele repetição eterna.”
Com tá o seu trabalho com a pandemia? Te afetou de alguma forma?
“Olha, eu acho que a pandemia afetou a todos nós, né?! Eu também fui afetado com certeza, porque, apesar de eu trabalhar mais com aulas individuais, as pessoas não saiam. A arte tá sempre em segundo plano. Então, assim, financeiramente todo mundo foi afetado. A grande massa foi afetada mundialmente. Então as pessoas deixaram a arte de lado. Teatros foram fechados, cinemas, estádios, tudo. E muita gente deixou de fazer uma atividade física.”

Um bailarino ganha bem?
“Se você for pra Europa você ganha muito bem.”
Como é a alimentação de um bailarino?
“Uma alimentação normal. Você tem que ter uma alimentação saudável, claro. Você não pode deixar de comer, porque você perde força. Tem que se alimentar de 3 em 3 horas, 4 a 5 refeições. A menina geralmente sofre um pouco mais. O menino pode comer um pouco mais, a menina não, porque a menina precisa ser magra. O balé exige isso, é uma característica. O balé é feito no aro, né?! 300g no corpo de uma bailarina faz diferença no movimento. Principalmente na questão das pontas. Imagina a ponta segurar a estrutura toda de um corpo de 50kg.”