Quando Nelson Freire nasceu, Dores de Boa Esperança já se chamava Boa Esperança.
Independente do nome e da cultura musical intensa, a cidade desde sempre foi pequena para o talento do pianista.
Em um de seus livro, Rubem Alves conta que a irmã mais velha de Nelson tentava tocar uma peça erudita.
Errava toda hora.
A família acompanhava as tentativas em outra sala.
De repente, o silêncio. E a menina acertou.
Todos foram cumprimentá-la.
Quem tinha tocado na verdade, de memória, era o irmão caçula.
Aos 3 anos, os pais de Nelson Freire passaram a levar Nelson para a vizinha cidade de Varginha.
Veio aprender piano com o maestro Cecílio Fernandes.
As aulas duraram menos de seis meses.
O maestro disse que aquilo era tudo que ele podia ensinar.
Década de 50.
A família se mudou para o Rio de Janeiro.
Em seu primeiro recital, aos 5 anos, Nelson já apresentava clássicos de Mozart.
Aos 12 anos ganhou uma bolsa de estudos na Europa, ao participar de um concurso de música. O presidente da República -que lhe concedeu a bolsa- era o também mineiro JK.
A história lhe abriu as portas e ele se tornou um dos pianistas mais aclamados do mundo na atualidade.
Foi o único brasileiro incluído na série “Great Pianists of the 20th Century” (Grandes pianistas do século XX), coletânea de cem volumes com gravações de 72 pianistas lançada mundialmente.
Durante a vida, se apresentou em Boa Esperança, em praça aberta, para público superior a 5 mil pessoas.
Em 2000 se apresentou no Theatro Municipal Capitólio de Varginha (a legenda da primeira foto está errada).

Praticamente estreou o recém-adquirido piano de cauda Essenfelder, que está até hoje no palco do teatro.
A condição: a renda seria destinada à Santa casa de Boa Esperança, recorda o maestro Rosildo Beltrão.
Voltando a Rubem Alves.
Na mesma crônica (não encontrei o livro, nem aqui em casa, nem no blog), o escritor diz que tentava aprender uma peça clássica ao piano.
Já se passavam semanas e ele não conseguia tocar a tal peça.
Um dia, receberam a visita da família de Nelson Freire.
Ele era uma criança. Devia ter seu 3 anos.
Quando viu a partitura aberta, tocou a peça.
De primeira.
Rubem Alves foi o Salieri de Nelson Freire.
Como lembra o músico varginhense Alexandre Braga, Rubem Alves tentou mas não conseguiu ser pianista, porque Nelson Freire colocava pra fora um piano que tinha dentro dele. E Rubem Alves percebia que fazia isso com as palavras. E foi ser escritor.
Um dos maiores pianistas do mundo, Nelson Freire morreu no Rio na madrugada desta segunda-feira (1º/11). Ele tinha 77 anos. Até o fechamento desta matéria, a causa da morte ainda não havia sido divulgada.
P.S.: antes que as pessoas que amam criticar o façam, o filme Amadeus é uma versão romantizada da vida do austríaco Mozart. Não me baseei em nenhum estudo científico que aponte que Nelson Freire tenha produzido como Mozart. Esta é uma simples crônica que tenta homenagear, ao mesmo tempo, três talentos em diferentes locais no espaço e tempo. Pronto, agora podem criticar.


Gostei muito da sua matéria sobre o falecimento do grande pianista Nelson Freire Obrigada!